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19 de March de 2026
A qualidade da água dos rios da Mata Atlântica continua precária, sem apresentar sinais consistentes de melhora. Lançado na semana do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, o novo relatório da Fundação SOS Mata Atlântica confirma um cenário de estagnação nos indicadores e revela uma redução significativa no número de pontos com água classificada como boa. No estudo mais recente, que reúne dados coletados entre janeiro e dezembro de 2025, quase 80% dos pontos monitorados apresentaram qualidade regular – o que indica impacto relevante da poluição e necessidade de tratamento da água para diferentes usos.
Produzido pelo programa Observando os Rios, uma das maiores iniciativas de ciência cidadã voltadas ao monitoramento da qualidade da água no Brasil, o Retrato da Qualidade da Água nos Rios da Mata Atlântica reúne um amplo diagnóstico sobre a situação dos cursos d’água do bioma. Neste ciclo de monitoramento, foram realizadas 1.209 análises em 162 pontos de coleta, distribuídos em 128 rios e corpos d’água localizados em 86 municípios de 14 estados, com a participação de 133 grupos voluntários. O relatório conta com patrocínio da Ypê e da Inditex, além do apoio da Águia Branca, da CMA GCM, da Fundação Sol de Janeiro, da Heineken e da Itaúsa.
Os resultados mostram que apenas cinco pontos (3,1%) apresentaram qualidade boa, enquanto 127 (78,4%) foram classificados como regulares, 25 (15,4%) como ruins e cinco (3,1%) como péssimos. Mais uma vez, nenhum ponto analisado atingiu a classificação de qualidade ótima.

O monitoramento utiliza o Índice de Qualidade da Água (IQA), indicador internacional adotado no Brasil para avaliar a condição ambiental da água doce. A metodologia classifica os rios em cinco categorias (ótima, boa, regular, ruim e péssima), considerando parâmetros físicos, químicos e biológicos, além de características da água como espumas, odor e turbidez (aferições organolépticas). Enquanto rios com qualidade boa ou ótima se mantêm em condições adequadas para abastecimento, produção de alimentos e vida aquática equilibrada, aqueles classificados como regulares já demonstram impactos ambientais que podem comprometer seu uso para consumo ou lazer. Nos rios com qualidade ruim ou péssima a poluição atinge níveis críticos, prejudicando tanto a biodiversidade quanto a população que depende desses recursos hídricos e a saúde pública.
Apenas cinco pontos de água com boa qualidade
A comparação com os dados do ciclo anterior reforça o alerta. Entre os 115 pontos acompanhados nos dois anos consecutivos, os classificados como bons caíram de nove para três. Ao mesmo tempo, houve um aumento dos regulares e leve crescimento dos enquadrados como ruins. Cinco pontos permaneceram na categoria péssima, mantendo condições críticas de qualidade da água.

Para Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da Fundação SOS Mata Atlântica, os resultados sinalizam que o país ainda não conseguiu avançar de forma estrutural na recuperação dos rios. “Seguimos presos a um cenário de estagnação num patamar que há anos já é preocupante. A predominância da qualidade regular revela que a maioria dos rios está sob pressão constante da poluição. Sem mudanças estruturais, o país continuará convivendo com rios degradados e, consequentemente, com riscos crescentes para toda a população”, afirma.
Ainda assim, há exemplos pontuais de recuperação. O rio Betume, em Pacatuba (SE), apresentou melhora e passou da classificação regular para boa, enquanto o rio Capivari, em Florianópolis (SC), e o córrego Itaguaçu/Itaquanduba, em Ilhabela (SP) avançaram de ruim para regular. Os casos indicam que a recuperação é possível quando há redução das fontes de poluição e avanços na gestão das bacias hidrográficas.
No entanto, o número de rios que perderam qualidade foi maior. Seis pontos que haviam apresentado classificação boa no ciclo anterior passaram para regular em 2025: os rios Pratagy, em Maceió (AL); Mamanguape, em Rio Tinto (PB); Sergipe, em Aracaju (SE); do Sal, em Nossa Senhora do Socorro (SE); Arroio Serraria, em Lindolfo Collor (RS); e o córrego do Balainho, em Suzano (SP). Entre os fatores associados a essa piora estão obras de infraestrutura, alterações no uso do solo, incêndios florestais, lançamento irregular de esgoto e pressões associadas à expansão urbana e às atividades agropecuárias.
Em alguns casos, a situação se agravou ainda mais: o rio Jaboatão, em Jaboatão dos Guararapes (PE), e pontos dos rios Paraíba do Sul, em Itaocara (RJ), e Tietê, em Guarulhos (SP) e Santana de Parnaíba (SP), passaram de regular para ruim, tornando a água imprópria para diversos usos. O relatório também aponta que alguns dos trechos mais críticos, com água péssima, permanecem sem melhora – como os rios Pinheiros e Jaguaré, na capital paulista, e o Ribeirão dos Meninos, em São Caetano do Sul (SP) –, evidenciando que a recuperação dos rios é lenta e exige ações estruturais contínuas.

Saneamento precário ainda é o maior obstáculo
O principal entrave para a melhoria da qualidade da água no Brasil continua sendo a falta de saneamento adequado. Embora haja a meta de universalização dos serviços até 2033, cerca de 35 milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso à água potável, enquanto aproximadamente metade da população do país não conta com coleta e tratamento de esgoto. Em muitas cidades, o despejo irregular de efluentes continua chegando diretamente aos rios.
A degradação das florestas também influencia diretamente a qualidade da água. A perda de matas ciliares reduz a capacidade dos rios de reter sedimentos, filtrar poluentes e regular o fluxo hídrico, agravando processos de assoreamento e comprometendo a disponibilidade de água em diversas bacias hidrográficas. Esses ecossistemas prestam serviços essenciais para a segurança hídrica, ajudando a manter a qualidade da água e a reduzir os riscos associados a eventos climáticos extremos.
Eventos extremos, como períodos prolongados de estiagem e chuvas intensas, alteram o funcionamento das bacias, aumentam o carreamento de sedimentos e reduzem a capacidade de diluição de poluentes, agravando a situação dos rios. Relatório recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) aponta que, para cada US$ 1 investido globalmente na proteção da natureza, cerca de US$ 30 financiam atividades que degradam os ecossistemas, evidenciando o descompasso entre os investimentos necessários para enfrentar a crise ambiental e os recursos destinados a atividades que pressionam os recursos naturais.
Diretora de políticas públicas da SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro afirma que os dados do relatório refletem escolhas políticas que afetam diretamente a saúde dos rios. Ela lembra que, além de atraso no saneamento e perda de florestas, o Brasil ainda convive com pressões recorrentes para flexibilizar instrumentos como o Código Florestal,a Lei da Mata Atlântica e as regras do licenciamento ambiental.
“Persiste um modelo de desenvolvimento que trata a natureza como obstáculo, quando, na verdade, é a base da segurança hídrica do país. A privatização de companhias de saneamento, frequentemente apresentada como solução definitiva, não pode substituir políticas públicas integradas, planejamento de longo prazo, fiscalização efetiva e avanços institucionais que reconheçam o acesso à água como direito. Fragilizar a legislação ambiental significa também fragilizar a segurança hídrica do país”, diz a diretora.
O Observando os Rios mobiliza comunidades em diferentes regiões da Mata Atlântica para acompanhar mensalmente a qualidade da água em rios e córregos, utilizando metodologia baseada no Índice de Qualidade da Água. Atualmente, a rede reúne mais de dois mil voluntários em 14 estados, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a situação dos recursos hídricos e fortalecer a mobilização social em defesa da água limpa. A consistência dos dados gerados pelo programa foi analisada em estudo publicado na revista científica internacional Citizen Science: Theory and Practice, que apontou forte convergência entre as medições realizadas pelos voluntários e os padrões oficiais de monitoramento da CETESB.
O relatório completo está disponível aqui no site e os resultados podem ser acessados na página do programa.