Sem sinais consistentes de melhora nos últimos anos, qualidade da água dos rios da Mata Atlântica preocupa

21 de March de 2025

A qualidade da água dos rios da Mata Atlântica não apresentou sinais significativos de recuperação nos últimos anos e, segundo a Fundação SOS Mata Atlântica, a situação é preocupante. No novo estudo da organização, que reúne dados coletados em 112 rios entre janeiro e dezembro de 2024, a água de mais de 75% dos pontos monitorados foi classificada como regular, ou seja, já é muito impactada pela poluição e necessita de tratamento para o consumo humano. Além disso, o número de ocorrências de qualidade ruim e péssima aumentou. 

Com patrocínio da Ypê e da Inditex, além de apoio da Águia Branca, da Fundação Sol de Janeiro e do Grupo Heineken, o relatório O Retrato da Qualidade da Água nas Bacias Hidrográficas da Mata Atlântica, produzido pelo programa Observando os Rios, da SOS Mata Atlântica, é um dos mais completos diagnósticos sobre a situação dos rios do bioma. Este ano, a análise foi realizada por voluntários em 145 pontos de coleta, em 67 municípios de 14 estados

Os resultados, divulgados às vésperas do Dia Mundial da Água, 22 de março, mostram que apenas 7,6% dos pontos (11) apresentaram qualidade boa, enquanto 13,8% (20) foram classificados como ruins e 3,4% (5) atingiram a pior classificação, péssima. A predominância da qualidade regular, em 75,2% dos pontos (109), reforça o alerta sobre a vulnerabilidade dos recursos hídricos na Mata Atlântica. 



A comparação com os dados do ano anterior revela um cenário ainda mais desafiador. Entre os 127 pontos monitorados nos dois anos consecutivos, houve um aumento no número de rios com qualidade ruim e a permanência de quatro pontos com qualidade péssima, incluindo o rio Pinheiros, na cidade de São Paulo, e o Ribeirão dos Meninos, em São Caetano do Sul (SP). Novamente, nenhum ponto analisado atingiu a classificação de qualidade ótima.

O Índice de Qualidade da Água (IQA), utilizado no monitoramento dos rios, classifica a água em cinco categorias: ótima, boa, regular, ruim e péssima. Rios com qualidade ótima ou boa contam com condições adequadas para abastecimento, produção de alimentos e vida aquática equilibrada, enquanto aqueles classificados como regulares já apresentam impactos ambientais que podem comprometer seu uso para consumo ou lazer. Nos rios com qualidade ruim ou péssima a poluição atinge níveis críticos, prejudicando tanto a biodiversidade quanto a população que depende desses recursos hídricos e a saúde pública. 

Para Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da SOS Mata Atlântica, os resultados evidenciam que os esforços para melhorar a qualidade da água não têm sido suficientes. “Nossos rios estão por um triz. O monitoramento deste ano deixa claro que a situação é grave. A estagnação dos índices de qualidade da água e o aumento de pontos classificados como ruins mostram que não há avanço real. Precisamos de ações mais eficazes e de investimentos urgentes em saneamento, porque enquanto não resolvermos isso nossos rios continuarão ameaçados”, afirma.

Equipe da SOS Mata Atlântica em visita à Unidade Recuperadora Antonico, da Sabesp.

Saneamento precário ainda é maior obstáculo

O estudo reforça que o principal entrave para a recuperação da qualidade da água ainda é o saneamento básico insuficiente. Apesar das promessas de universalização do serviço até 2033, cerca de 35 milhões de brasileiros seguem sem acesso à água potável e metade da população do país não tem seu esgoto tratado. A poluição ainda é despejada sem controle em muitos cursos d’água, agravando um quadro que já é crítico.

Além da falta de saneamento adequado, a crise climática também desempenha um papel determinante. O relatório destaca como eventos climáticos extremos, como secas severas e chuvas intensas, afetam diretamente os rios, aumentando a concentração de poluentes e reduzindo a disponibilidade de água limpa. “Poluir um rio é muito rápido, mas recuperá-lo é um processo lento e caro. Em um cenário de emergência climática, adiar soluções só vai tornar a crise hídrica ainda mais grave”, alerta Veronesi.

Ainda assim, há casos pontuais de melhoria que demonstram o potencial de recuperação quando há mobilização e políticas adequadas. O Córrego Trapicheiros, na cidade do Rio de Janeiro, apresentou uma melhora de qualidade regular para boa, assim como os rios Sergipe e do Sal, em Sergipe. Em São Paulo, o Córrego São José, na capital, saiu da classificação ruim para regular. São exemplos que reforçam que a recuperação dos rios é possível, mas exige um esforço coordenado entre sociedade, governos e empresas.

Mais de 2 mil voluntários participaram das análises de 2024.

Enquanto alguns poucos rios melhoram, outros seguem perdendo qualidade. O relatório chama atenção para a piora no rio Capibaribe, em Pernambuco, e no rio Capivari, em Florianópolis, ambos impactados pelo despejo irregular de esgoto. A ausência de fiscalização adequada e a expansão urbana desordenada contribuem para esse cenário de degradação progressiva. 

Para Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da SOS Mata Atlântica, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para integrar políticas de água, clima, meio ambiente e saneamento, um desafio essencial para a gestão sustentável dos recursos hídricos. 

“A sociedade civil precisa estar cada vez mais ativa nos comitês de bacias hidrográficas e na defesa da água limpa, porque o cenário não melhora sozinho. Enquanto a ONU reforça a urgência de políticas integradas até 2030, o Brasil ainda precisa avançar para transformar compromissos em ações concretas. O retrato da qualidade da água dos rios da Mata Atlântica, construído por meio da ciência cidadã, reforça essa necessidade e evidencia o papel crucial da mobilização social para garantir um futuro sustentável para todos”, destaca.

O Observando os Rios é um dos maiores programas de ciência cidadã do Brasil. Sua metodologia permite que a sociedade, independentemente dos conhecimentos prévios sobre o Índice de Qualidade da Água (IQA), possa analisar e classificar como está a saúde dos rios. São, no total, 16 parâmetros analisados, que remetem à Resolução CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) 357/05. 

A partir deste ano, o programa ampliou a frequência das análises e fortaleceu a mobilização social em torno dos resultados. Com cerca de dois mil voluntários ativos em 14 estados, a iniciativa é referência no monitoramento da água, mostrando que a participação da sociedade é fundamental para pressionar por políticas públicas mais eficazes.

O estudo está disponível aqui no site.

Bacias hidrográficas com atuação do Observando os Rios.

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