Desmatamento na Mata Atlântica atinge menor nível histórico e confirma trajetória de desaceleração

13 de May de 2026

Supressão total registrou queda de 28%, chegando a 40% em florestas maduras

Dois dos principais sistemas de monitoramento da Mata Atlântica apresentaram, em 2025, os melhores resultados de suas respectivas séries históricas.

O Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD) Mata Atlântica, desenvolvido pela Fundação SOS Mata Atlântica, MapBiomas e Arcplan desde 2022, registrou queda de 28% no desmatamento em relação ao período anterior – de 53.303 para 38.385 hectares. Trata-se do menor índice dos quatro anos de acompanhamento.

Já o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, parceria entre a SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que desde 1985 monitora os grandes fragmentos de florestas maduras do bioma, confirma a mesma tendência com um dado ainda mais expressivo: redução de 40% na supressão, que passou de 14.366 para 8.668 hectares. Em quatro décadas de monitoramento, pela primeira vez o desmatamento anual ficou abaixo da marca de 10 mil hectares.

Taxa de desmatamento e tendência para a série histórica

O resultado se dá num ano especialmente simbólico: em 2026, a Mata Atlântica registra seu menor desflorestamento ao mesmo tempo em que a Fundação SOS Mata Atlântica completa 40 anos e a Lei da Mata Atlântica (primeira legislação específica para a proteção de um bioma brasileiro e referência internacional em conservação de florestas tropicais) chega aos 20 anos.

A redução é reflexo de pressão pública, mobilização da sociedade, políticas ambientais e ações de fiscalização – entre elas medidas como a Operação Mata Atlântica em Pé, a aplicação de embargos remotos e a restrição de crédito a áreas desmatadas ilegalmente, além da afirmação da Lei da Mata Atlântica como principal instrumento de proteção da vegetação nativa do bioma.

De acordo com o SAD, houve redução das derrubadas em 11 dos 17 estados do bioma, com destaque para Bahia e Piauí. Apesar do recuo, ambos ainda aparecem entre os maiores responsáveis pela perda florestal: Bahia (17.635 ha), Minas Gerais (10.228 ha), Piauí (4.389 ha) e Mato Grosso do Sul (1.962 ha) concentraram, juntos, 89% da área total desmatada. Nos demais estados, as perdas ficaram abaixo de 1.000 hectares. Quase toda a destruição registrada pelo sistema, 96%, foi convertida para uso agropecuário – grande parte com indício de ilegalidade.

Para Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da SOS Mata Atlântica, os números de 2025 confirmam uma trajetória. “Políticas públicas e instrumentos de controle ambiental funcionam quando são aplicados com seriedade. A celebração, no entanto, precisa vir acompanhada de vigilância. O desmatamento continua acontecendo e, na Mata Atlântica, cada fragmento perdido faz diferença. O desafio é manter essa trajetória até zerarmos o desmatamento”, ressalta.

O desafio daqui em diante

A Mata Atlântica abriga cerca de 70% da população brasileira e sustenta mais de 80% do PIB nacional. Protegê-la é garantir segurança hídrica, estabilidade climática e produtividade agrícola para a maior parte do país.

O bioma tem condições de se tornar o primeiro no país a alcançar o desmatamento zero e avançar em uma agenda de restauração florestal em grande escala – e os dados de 2025, embora não encerrem o problema, mostram que essa direção é possível.

Esse cenário positivo, porém, convive com um risco concreto no plano legislativo. Em 2025, o Congresso Nacional aprovou a Lei Geral do Licenciamento Ambiental e a Lei da Licença Ambiental Especial, que enfraquecem mecanismos de controle do desmatamento justamente quando eles mostram resultados. 

Uma das mudanças mais graves afeta diretamente a Mata Atlântica: o novo marco dispensa a anuência do Ibama para órgãos estaduais atuarem nas autorizações de desmatamento de vegetação primária e secundária em estágio avançado de regeneração. A supressão de vegetação nativa nesses casos é vedada pela Lei e só é permitida em casos de utilidade pública e fim social. A alteração na Lei da Mata Atlântica passa a permitir que a autorização para desmatamento seja realizada por um único órgão licenciador – incluindo municípios que, na maioria dos casos, não têm estrutura técnica para a análise dos estágios sucessionais da Mata Atlântica.  

“É uma distorção que leva o Brasil na contramão do Acordo de Paris e potencializa tragédias climáticas. Os números apontam que o desmatamento cai quando a lei é aplicada com rigor e critérios técnicos. Enfraquecer os instrumentos de proteção agora é arriscar o que levamos anos construindo”, afirma Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da SOS Mata Atlântica.

Perda de floresta (em vermelho) no último ano

Monitoramentos complementares

O SAD Mata Atlântica detecta desmatamentos em fragmentos a partir de 0,3 hectare, com o objetivo de gerar documentação ágil e completa para cada evento de supressão. “O SAD foi desenvolvido para fechar a lacuna entre o monitoramento anual e a realidade do desmatamento no dia a dia. Quanto mais rápido um alerta chega aos órgãos responsáveis, maior a chance de interromper a destruição antes que ela se consolide”, explica Marcos Rosa, diretor da Arcplan e coordenador técnico do MapBiomas.

Em 2025, o sistema passou a contabilizar somente o desmatamento dentro do mapa de aplicação da Lei da Mata Atlântica, desconsiderando as partes de áreas suprimidas que, na fronteira com outros biomas, ultrapassem esse limite. O ajuste metodológico garante maior precisão na atribuição das perdas.

O Atlas da Mata Atlântica, por sua vez, monitora áreas a partir de três hectares e oferece uma fotografia anual da situação dos grandes fragmentos florestais do bioma – especialmente as matas maduras, que são os de maior importância para a biodiversidade e o estoque de carbono. Da cobertura original total da Mata Atlântica restam hoje cerca de 24%, sendo pouco mais da metade (12,4%) correspondente às florestas maduras. 

Coordenadora técnica do Atlas pelo INPE, Silvana Amaral ressalta que 40 anos de monitoramento contínuo construíram a base que permite avaliar com precisão o que está acontecendo com os remanescentes mais valiosos da Mata Atlântica. “É essa série histórica que dá o real significado ao resultado de 2025 e comprova que estamos diante de uma mudança consistente”, avalia.

Os dados completos estão disponíveis aqui no site, nas páginas do Atlas da Mata Atlântica 2024-2025 e no painel do SAD Mata Atlântica. O Atlas pode ser baixado como PDF na página de Relatório e Balanços.

Tanto o Atlas quanto o SAD têm execução técnica da Arcplan.

Compartilhar nas redes: