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26 de March de 2025
por Afra Balazina e Marina Vieira
O antropólogo Eduardo Brondizio foi um dos vencedores do Prêmio Tyler de Realização Ambiental 2025, considerado o "Nobel do Meio Ambiente". Ao lado da ecologista argentina Sandra Díaz, ele foi reconhecido por "conectar biodiversidade e humanidade", trazendo pela primeira vez a honraria para a América do Sul.
Especialista nas relações entre sociedade, meio ambiente e mudanças socioambientais na Amazônia, Brondizio atua há mais de três décadas na região. Sua trajetória na defesa das florestas brasileiras, porém, começou antes, como um dos criadores da Fundação SOS Mata Atlântica, em 1986.
Na organização, liderou o primeiro mapeamento da Mata Atlântica — o Atlas dos Remanescentes Florestais — em parceria com o INPE e o Ibama, um marco na aplicação de tecnologias de sensoriamento remoto e bancos de dados para a conservação. Esse trabalho pioneiro segue até hoje como uma das principais ferramentas de monitoramento do bioma.
Marcia Hirota, presidente do conselho da Fundação, destaca o papel de Brondizio na criação dessa base técnica, enquanto o conselheiro Clayton Lino reforça sua contribuição também na Amazônia: "Eduardo mostrou a importância dos povos indígenas e das comunidades tradicionais para a conservação e o uso sustentável da floresta. Sem dúvida, merece esse prêmio".
Brondizio também copresidiu a Avaliação Global de Biodiversidade do IPBES, coordenando mais de 450 cientistas de 50 países. O relatório, referência internacional, foi o primeiro a integrar sistematicamente os conhecimentos indígenas e locais, consolidando um novo modelo de governança ambiental mais inclusiva.
Conversamos com ele sobre sua trajetória e os desafios atuais da conservação:
SOS Mata Atlântica - O senhor fez parte da fundação da SOS Mata Atlântica, junto a nomes da academia, do jornalismo, do setor privado e da sociedade civil. Como era o cenário naquela época? O que levou à criação da organização?
Eduardo Brondizio - Foi um momento muito especial. O ambientalismo, para a nossa geração, foi uma maneira de participar da transição democrática do Brasil.
O país passou por uma urbanização acelerada, com uma forte reconexão entre as regiões e incentivos econômicos que impulsionaram um crescimento muito rápido.
Nossa geração viveu essa transição de um Brasil predominantemente rural para um país urbano, onde infraestruturas estavam sendo desenvolvidas e transformando biomas como a Mata Atlântica — assim como, hoje, ocorre na Amazônia.
Essa transformação estava ali, batendo à nossa porta. Víamos o impacto nas regiões costeiras e no interior, um processo de ocupação rápida e desordenada, que gerava grandes impactos ambientais e sociais.
As comunidades ribeirinhas e tradicionais também estavam sendo afetadas por essa mudança repentina. Os problemas já eram bastante evidentes: poluição, desmatamento, ocupação irregular de terras, pesca predatória.
Ao mesmo tempo, vivíamos sob um regime militar, em um período de ditadura, e nossa geração buscava ter voz.
A SOS Mata Atlântica nasceu desse contexto, unindo gente de várias áreas com o desejo comum de proteger o meio ambiente e lutar por um país mais justo.
O que mais me marcou foi o senso de agência que tínhamos — a convicção de que era possível fazer a diferença.
O senhor também fez parte da elaboração do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, um trabalho até então inédito. Como foi esse processo?
Isso também tem relação com o processo de redemocratização.
Naquela época, eu pesquisava o impacto da rodovia Rio-Santos sobre a comunidade de Trindade, em Paraty (RJ). Foi quando tive contato com o livro "Genocídio dos Caiçaras", da Priscila Siqueira, que denunciava o impacto da especulação imobiliária e da violência associada à expulsão de comunidades tradicionais. Ali, percebi a potência do sensoriamento remoto para analisar o território.
Ao mesmo tempo, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) começava a se abrir para a sociedade civil. Quando surgiu a oportunidade, fui um dos primeiros a conseguir um estágio para estudar sensoriamento remoto no contexto de pesquisas ambientais.
E quando se formou o primeiro corpo profissional da SOS Mata Atlântica, um grupo técnico foi montado e conseguimos articular uma parceria. Eu fazia parte desse grupo, junto com a Inês de Souza Dias, a Berenice Gomes da Silva, o João Paulo Capobianco, o Clayton Lino, o João Carlos de Souza Meirelles, entre outros.
Com um time técnico da Fundação, articulamos o primeiro mapeamento da Mata Atlântica usando imagens de satélite e muita validação em campo. Foi um projeto inédito, que envolveu diversos parceiros e permitiu termos, pela primeira vez, uma visão completa dos remanescentes florestais.
O Atlas virou uma referência e permanece até hoje como base para políticas públicas e conservação.
Os resultados surpreenderam?
Ninguém sabia exatamente quanto restava da Mata Atlântica. O Atlas trouxe um dado concreto, com metodologia sólida, e acabou confirmando, ao longo dos anos, a gravidade da situação.
Quando saí da SOS Mata Atlântica, me preocupei em garantir a continuidade do trabalho. Criamos o ProInforma, que estruturou o monitoramento periódico. Ver que o Atlas se mantém até hoje, atualizado, é motivo de muito orgulho.
Depois disso, o senhor passou a atuar na Amazônia, um bioma que enfrenta desafios semelhantes. Que lições podemos levar de um para o outro?
A Amazônia vive, hoje, o filme da Mata Atlântica — com a mesma lógica de desvalorização da floresta, as visões de terras como sistemas homogêneos de produção, o desrespeito pela população local.
O desafio é que, enquanto na Mata Atlântica já estamos tentando recuperar, na Amazônia ainda temos chance de evitar o pior. Mas, para isso, precisamos apoiar as boas iniciativas que existem lá, muitas vezes esquecidas.
O problema é repetir a ideia de que desmatamento gera desenvolvimento — quando, na prática, essa conta não fecha.
Desde o primeiro Atlas até hoje, houve avanços em tecnologia, alguns avanços mas também retrocessos na legislação. O que falta para chegarmos ao desmatamento zero na Mata Atlântica?
Aprendi que, no ambientalismo, a vitória nunca é definitiva. Nos anos 1980 e 1990, avançamos muito, com a Constituição de 88, a Lei da Mata Atlântica, criação de áreas protegidas. Mas o retrocesso é sempre uma ameaça.
Na Mata Atlântica, conquistas consolidadas foram perdidas rapidamente. E o grande problema é que naturalizamos a degradação e a pobreza, como se fossem o preço do progresso.
Ainda falta tornar visível, para todos, que qualidade ambiental é qualidade de vida. Essa conexão precisa ser cada vez mais direta e palpável.
Parece que só percebemos essa conexão em momentos de crise, como falta d’água, calor extremo e enchentes. Agora, com a emergência climática, isso tende a se intensificar?
Sim. A crise climática expõe nossas vulnerabilidades e muitas delas vêm da destruição da natureza.
Quando falamos de calor extremo, secas ou enchentes, são sempre as populações mais vulneráveis que sofrem mais porque vivem nas áreas mais degradadas. Árvores, florestas e vegetação são nossa primeira linha de defesa.
Soluções baseadas na natureza são poderosas porque atacam o problema ambiental, social e climático ao mesmo tempo. Precisamos sempre fazer essa conexão.
Considerando sua experiência internacional e o fato da COP 30 acontecer em Belém, dentro da Amazônia, acha que estamos conseguindo conectar as agendas de biodiversidade, clima e qualidade de vida?
Ainda não. E não existe uma panaceia, mas a COP 30 tem potencial para isso — se conseguir encarar a Amazônia real, não os imaginários que insistem em reduzir a região a uma floresta intocada ou celeiro de commodities.
A Amazônia tem 80% da população vivendo em cidades. É complexa, diversa e hoje enfrenta um problema gravíssimo: o avanço do crime organizado sobre o território.
Se a COP conseguir fazer essa conexão entre clima, biodiversidade e justiça social, e direcionar recursos para enfrentar os desafios reais da região, será um grande avanço.
Por fim, o que representa para o senhor receber o Prêmio Tyler, o mais importante do ambientalismo global?
É um reconhecimento coletivo. Tudo o que faço é construído junto, com colegas da academia, das comunidades, das populações indígenas.
Também é uma valorização das ciências sociais nas discussões ambientais. Porque meio ambiente é, antes de tudo, sobre pessoas. E dar visibilidade a quem está na linha de frente é fundamental.
Acho que esse prêmio ajuda a trazer essas vozes para o centro da conversa — é isso que me dá mais satisfação.