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14 de February de 2025
Mais de 186 mil hectares de florestas maduras foram perdidos entre 2010 e 2020, a maior parte derrubada em propriedades privadas
Um estudo publicado na revista científica britânica Nature Sustainability revela os padrões de perda de florestas maduras na Mata Atlântica, destacando a necessidade urgente de ações para conter o desmatamento e proteger o bioma. O levantamento identificou mais de 14 mil polígonos de desmatamento entre os anos de 2010 e 2020, que somam uma perda de 186.289 hectares – uma área correspondente a quase 200 mil campos de futebol. A maioria das ocorrências se deu em pequenas áreas de propriedades privadas e com indícios de ilegalidade.
A pesquisa, conduzida por uma equipe de especialistas da Fundação SOS Mata Atlântica, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Universidade de São Paulo (USP), analisou pela primeira vez os padrões espaciais e temporais do desmatamento entre 2010 e 2020, considerando a sua distribuição geográfica, tamanho, perfil fundiário e uso da terra após o desmatamento.
“Os dados mostram uma realidade preocupante. Mesmo com a legislação específica que protege a Mata Atlântica, estamos perdendo florestas maduras que abrigam uma rica biodiversidade e desempenham papéis fundamentais no equilíbrio climático e na segurança hídrica do Brasil”, afirma Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da Fundação SOS Mata Atlântica e coautor do estudo. Segundo ele, é imprescindível fortalecer os mecanismos de fiscalização e criar incentivos econômicos para que a conservação seja viável, especialmente nas propriedades privadas.
O estudo identificou ainda duas regiões mais críticas de desmatamento chamadas hotspots: uma ao norte do bioma, abrangendo os estados da Bahia e Minas Gerais, e outra ao sul, nos estados do Paraná e Santa Catarina. As áreas desmatadas estão sendo convertidas, sobretudo, em pastagens, silvicultura e agricultura temporária, com impactos graves para o clima e a biodiversidade.
Jean Paul Metzger, pesquisador da USP e também coautor do estudo, ressalta que o desmatamento afeta diretamente os serviços ecossistêmicos essenciais, como o controle da erosão, a polinização e o fornecimento de água. “Perder essas florestas significa comprometer a qualidade de vida de milhões de brasileiros”, afirma. Segundo o pesquisador, o artigo dá subsídios para a prevenção e o combate ao desmatamento.
Outro ponto de atenção abordado é a insuficiência de áreas protegidas para conter o avanço do desmatamento. A coautora do estudo Silvana Amaral, pesquisadora do INPE, reforça que o desmatamento dentro de terras indígenas e quilombolas, bem como em áreas protegidas, embora menor em volume, ainda apresenta taxas preocupantes. “Isso evidencia a necessidade de maior suporte a essas comunidades e uma governança ambiental mais efetiva”, completa. Os autores sugerem que, além de intensificar a aplicação da Lei da Mata Atlântica, é fundamental investir na restauração de ecossistemas degradados e na ampliação de áreas protegidas, combinando esforços de conservação e desenvolvimento sustentável. “O Brasil tem uma oportunidade única de liderar globalmente ao adotar uma estratégia ambiciosa de desmatamento zero na Mata Atlântica, que pode se tornar um modelo para outros biomas tropicais”, avalia Guedes Pinto. Para isso, são necessárias ações integradas entre governos, sociedade civil e setor privado.
Também são coautores do estudo Marcos Rosa (USP, Mapbiomas), Bruno Vargas Adorno (INPE) e Gabriel Crivellaro Gonçalves (INPE). A íntegra está disponível na Nature Sustainability.